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domingo, 5 de agosto de 2007

Pequenos milagres do dia-a-dia


Trabalho num setor de morte. Todo dia a gente realiza quatro, cinco curetagens –raspa-se o útero após o aborto. Não realizamos o aborto em si (ai de mim); a gente cuida das mulheres quando o aborto é inevitável ou já aconteceu.


Todas essas mulheres chegam lá sangrando bastante; chegam e fazem uma série de exames pra determinar a situação do aborto. É difícil dizer quantos casos são de aborto natural. Aliás, impossível. Enquanto esperam o resultado, metade das mulheres parece conformada. A outra metade parece aliviada.“Vai tirar tudo, enfermeira?”, “Vai sair tudo?” são perguntas que eu escuto todo dia.


Nesse tempo todo que estou lá, nunca tinha tido uma cliente que quisesse mesmo manter a gravidez. Até essa semana. Fui me apresentar (“oi, sou a enfermeira Fabrícia, vim conhecer minhas pacientes”) e ela lá. Perguntei por que ela estava internada. Ela: “dizem que eu perdi o meu bebê”. E eu “daqui a pouco você faz uma ultrassom, e depois do resultado vai pra sala”. Aí ela começou a chorar: “Mas eu não quero perder o meu bebê, eu não quero perder meu bebê”... parecia um mantra.


“Ai meu Deus, o que eu faço?!” eu orei na minha mente - “o que eu digo?”
Não tinha nada que eu pudesse fazer ou falar; com aquele sangramento todo, era muito provável que ela tivesse perdido a criança. Então parei tudo e fui orar com ela, baixinho, do lado do leito. Pedi um milagre.


Depois ela foi pro ultrassom; continuei meu trabalho. Quando ela voltou, a alegria dela era tão genuína, o alívio tão grande: “obrigada, enfermeira, obrigada, muito obrigada”. O bebê ainda estava lá (aleluia!).... me deu um nó na garganta, nem disse nada, só sorri.


Glória a Deus, que realmente responde as orações. Ele é mesmo um Deus de milagres.