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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Crônica da mulher masoquista

Começa devagar, miúdo. Um dia, começo da relação, algo o irrita e o xingamento sai: "burra". Ela se ofende; o Zé pede desculpas. Pronto, começou um padrão de comportamento. Ela demora a se dar conta; mas aquilo que começou pequeno vai crescendo. O Zé é irritadiço; as amigas se chocam: "ele te ofendeu desse jeito, e vc não fez nada?" Mas ela, a doce mulher masoquista, releva; ela até o justifica: "fui eu que provoquei..." Bom para o Zé. Ele já aprendeu que pode ofender à vontade; não dá nada, basta pedir desculpas depois.
Passa o tempo e a ofensa já não aplaca a ira; o Zé passa para os pequenos empurrões, beliscões, chacoalhadas. Ser colocada contra a parede deixa de ser força de expressão. "Mas eu o amo tanto, como é que vou ficar sozinha?" Os hematomas, testemunhas teimosas, gritam com o espelho. Obviamente, chega o dia da consumação do fato, da violência já inegável, do choro compulsivo... "Como foi que isso aconteceu?". Uai, querida mulher masoquista, não aconteceu agora ou aqui; é parto do embrião gerado lá atrás, no primeiro "sua burra".
Que tristeza ver de novo este filme velho e previsível: a agressão só cresce, cada vez mais, cresce. Que dor ver que a estrela, dessa vez, é uma amiga tão querida. E o pior, não consigo lidar com o fato de que não adianta falar nada, o sentimento dela é tão grande por ele que se doa acima da própria integridade. Física, moral, psicológica, pessoal. Ela se anula, pura e simplesmente. Se deixa pisotear.
Eu, ser humana altamente falível, resolvi me afastar pelo menos um pouco. Se continuo do lado, a língua é maior do que a boca e não consegue guardar a fúria contra o Zé. Aí, acabo perdendo a amiga, que ainda se magoa (comigo!) quando o Zé é "ofendido". Não posso com isso. Senhor, me perdoa.

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